Perda de grau de investimento afeta agricultura

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As consequências da perda do grau de investimento pelo país ainda não são claras para a agricultura. Mas os efeitos sobre a economia já indicam para uma redução de margem do produtor no próximo ano.

A avaliação é do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues. Para ele, câmbio e crédito são dois pilares fundamentais para o setor neste momento, e o rumo deles ainda gera dúvidas.

O câmbio, no ritmo atual, beneficia a agropecuária, que plantou com um dólar menor e está vendendo com um dólar mais elevado.

As negociações das commodities são basicamente feitas em dólar, o que traz mais reais para os produtores.

O problema, segundo Rodrigues, é que a safra atual já está sendo plantada com um dólar mais elevado. Ou seja, custos maiores. E com qual dólar vamos negociar no final da safra?, pergunta ele. Se o dólar estiver abaixo dos patamares atuais, a conta não vai fechar.

A questão do crédito, que preocupava os produtores, começa a ser resolvida com as liberações que vêm ocorrendo nas últimas semanas, diz Rodrigues.

A agropecuária sentirá os reflexos dos rumos da governabilidade. Os erros cometidos pelo governo começam a ser pagos agora pela sociedade. À exceção do setor sucroenergético, que já está pagando há mais tempo.

Apesar de admitir que há problemas na condução política e econômica do governo federal, o ex-ministro afirma que a agricultura está em boas mãos.

“A Kátia Abreu, que conseguiu um bom Plano Safra, conhece o setor e tem representatividade no governo.”

Sobre a possibilidade de a ministra da Agricultura assumir a Casa Civil, Rodrigues diz que, “seria melhor ainda. Com a Kátia na Casa Civil, teríamos dois ministros. Ela e quem ela indicar”.

Mesmo com os problemas atuais, o ex-ministro se diz esperançoso. “É preciso olhar para a frente.”

Os investimentos na agricultura com certeza serão menores daqui para a frente. É só ver o resultado das compras de máquinas e equipamentos pelos produtores nas feiras realizadas pelo país.

Mas, um alívio poderá vir de possíveis quedas nos preços de fertilizantes, máquinas e agroquímicos.

O lado bom é que o produtor aprendeu que, para competir, tem de ter tecnologia e produtividade.

O que significa para o Brasil a perda do grau de investimento?

Nota do Brasil foi rebaixada de ‘BBB-‘ para ‘BB+’ pela S&P. Agência é a 1ª entre as principais a tirar do país o selo de bom pagador.

O Brasil perdeu o grau de investimento na classificação de crédito da Standard and Poor’s (S&P), informou a agência de classificação de risco nesta quarta-feira (9). A nota foi rebaixada de “BBB-” para “BB+”, com perspectiva negativa.

O Brasil ainda possui grau de investimento pelas outras duas agências de risco internacionais, a Ficth e a Moody’s.

O receio de que o país perdesse o grau de investimento – espécie de selo de bom pagador e “porto seguro” para investidores – influenciou a tendência de alta do dólar e de queda da Bovespa nos últimos meses.

Mas, agora que isso aconteceu, qual é o efeito da perda do grau de investimento para os brasileiros?

Veja abaixo 6 perguntas e respostas sobre o risco de rebaixamento do Brasil. Para elaborar as respostas, o G1 ouviu Alex Agostini, presidente da agência de classificação de risco Austin Rating, Bruno De Conti, do Centro de estudos de Conjuntura Política Econômica daUnicamp, e Judas Tadeu Grassi Mendes, da EBS Business School.

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O que é grau de investimento?

O grau de investimento é um selo de qualidade que assegura aos investidores um menor risco de calotes. A partir da nota de risco que determinado país recebeu, os investidores podem avaliar se a possibilidade de ganhos (por exemplo, com juros maiores) compensa o risco de perder o capital investido com a instabilidade econômica local. O Brasil conquistou o grau de investimento pelas agências internacionais Fitch Ratings e Standard & Poor’s em 2008. Em 2009, conquistou a classificação pela Moody’s.

Para que servem as notas de crédito das agências e o grau de investimento?

Alguns fundos de pensão internacionais, de países da Europa ou Estados Unidos, por exemplo, seguem a regra de que só se pode investir em títulos de países que estão classificados com grau de investimento por agências internacionais. Por isso, essa “nota” permite que o país receba recursos de investidores interessados em aplicar seu dinheiro naquele local.

“O propósito principal das agências é justamente atribuir uma nota que indique ao mercado financeiro a possibilidade ou o risco de que o emissor de determinado título de dívida venha a não cumprir com o compromisso de dívida, ou seja, venha a dar um calote”, diz Bruno De Conti.

Por que o Brasil perdeu o grau de investimento?

Para justificar a perda do selo de bom pagador do Brasil, a Standard and Poor’s afirmou que os desafios políticos que o Brasil enfrenta continuam a pesar na capacidade do governo de submeter ao Congresso uma proposta de Orçamento consistente com a política de correção prometida no início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

A proposta do Orçamento 2016 mostra “mais um desafio para a meta fiscal” menos de seis semanas após a última revisão da nota brasileira. Para a S&P, esse desafio “poderia significar 3 anos seguidos de déficit primário e aumento contínuo da dívida se os rendimentos subsequentes ou medidas de cortes de gastos não forem tomados”.

As agências de risco avaliam a situação econômica do país para determinar se o selo de “bom pagador” é apropriado ou não. Por isso, indicadores ruins e ambiente econômico de incertezas em um país podem gerar uma tendência de rebaixamento da nota.

 No caso do Brasil, o mercado teme que o país, depois do esperado rebaixamento pelas agências de avaliação de risco Moody’s e Fitch, receba perspectiva negativa de alguma delas.

Judas Tadeu Grassi Mendes aponta que o principal problema é o conjunto de indicadores econômicos negativos.

“Todos os indicadores estão negativos. O governo tinha prometido 1,2% (do PIB) de superávit primário agora está praticamente acenando que vai ser negativo, como foi no ano passado”, diz ele, apontando o anúncio de que o governo decidiu revisar a meta de economia para pagar os juros da dívida – o chamado superávit primário – para R$ 8,747 bilhões em 2015, o equivalente a 0,15% do PIB, ante previsão anterior de R$ 66,3 bilhões (1,19% do PIB).

“Não está havendo cortes efetivos”, continua Mendes. “Todo esse ajuste fiscal é muito mais de aumento de juros que corte de despesa. A Selic mais alta significa que o governo vai se enterrar mais ainda em juros. O número de desempregados é crescente. A inflação está no dobro da meta, em 9% quando deveria ser 4,5%. Ou seja não há um único indicador razoavelmente favorável, pelo contrário.”

Já Bruno De Conti considera “exagero” colocar o Brasil em uma classificação de maior risco de “calote” de sua dívida. “Já começa que existe muita especulação sobre a própria idoneidade das agências. Elas estão completamente mergulhadas nessas operações de mercado e algumas pessoas questionam a pretensa neutralidade nessas análises.”

“Os critérios que são usados em teoria deveriam verificar justamente a capacidade de pagamento da dívida. Nesse aspecto, eu discordo que o Brasil esteja numa situação que exista risco de calote, esse risco não está no horizonte. É evidente que o resultado das contas públicas piorou, mas daí dizer que há risco de calote é exagero”, diz De Conte.

O que acontece com os investimentos a partir de agora?

Sem o grau de investimento, muitos investidores estrangeiros não podem mais aplicar dinheiro no Brasil. Também pode acontecer a saída de recursos aplicados atualmente.

A situação ocasionaria então uma “fuga” de capital do país. “O que significa na prática é que um país que perca o grau de investimento não vai mais poder contar com recursos desses fundos de previdência, e isso pode significar uma fuga de capital”, diz De Conti.

O que muda efetivamente na vida das pessoas?

A fuga de capital internacional tem um “efeito em cascata” para a economia, como aponta Alex Agostini. “O efeito cascata seria a menor geração de emprego, alguns desarranjos na política econômica. O mercado entende já que vão entrar menos dólares no Brasil e o preço sobe, que é o que está acontecendo agora. Então, os produtos importados ficam mais caros. Vai ficar mais caro para quem se utiliza de produtos de saúde, por exemplo, que é um setor que importa muito. O mesmo ocorre com máquinas e fertilizantes para o setor agrícola”, diz Agostini, explicando que a situação agravaria a inflação.

O economista também aponta que menos investimentos podem afetar o poder aquisitivo das pessoas. “Isso torna a vida do cidadão comum mais difícil para conseguir emprego ou amenta o risco de perder o emprego”, diz.

O que muda para as empresas?

Agostini aponta que a perda do grau de investimento não impede que o país seja alvo de investimentos de empresas interessadas em abrir unidades no Brasil. Porém, a perspectiva de retorno para essas empresas é menor e, por isso, o volume de capital investido tende a diminuir.

“A empresa que antes tinha uma perspectiva de retorno de 10% a 15% passa a ter expectativa menor. Isso porque, se ela investir aqui, dado que esse país vai receber menos recursos, o potencial de consumo do país diminui. Então, os produtos que a empresa iria ofertar no mercado não vão mais ter aquele preço, a quantidade não pode ser a mesma. Isso impacta no retorno esperado pela empresa e ela pode reduzir o volume incialmente previsto”, diz o especialista.

Ele aponta que isso implica em menos geração de empregos. “US$ 1 bilhão investido tem um determinado número de pessoas que seriam empregadas. Com um volume menor investido, naturalmente esse número também será menor.”

Fonte:

G1, 24/07/2015

G1, 09/09/2015

Folha de São Paulo, 19/09/2015

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